segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

22/10

      És como uma página cheia de rabiscos e desenhos bonitos que quero rasgar. Quero arrancar essa página com todas as minhas forças, sem tremer como já tremo enquanto passo ainda mais palavras para este ''teu'' papel. Nunca serás meu nem nunca serás de ninguém. Nem sequer serás o teu próprio ''papel''.

   Quando vim embora, não olhei para trás. Nem para ti nem para aquela casa cheia de paredes que eram cheias de histórias, cheias de música que já tocou, cheias de gemidos que ali ecoaram, cheias de lágrimas que ali já derramaram. Minto, olhei para ti uma última vez, hesitante entre fazer com que aquele fosse o último olhar que pousaria sobre ti ou se ainda olhasse mais uma vez. E acho que aí, a escolha quase inconsciente que fiz era óbvia. Voltar a olhar não fazia sentido. ''Voltar'' por si só não faz sentido.
Já não dá. E no entanto, durante todo este tempo é o que tenho feito. Voltar. Estou cansada daquele cansaço que já nem sei como é que ele se define exatamente. Estou triste. Apática. Poderia dizer que me sinto em baixo, mas a minha auto-estima está destruída, sinto-me trocada e é como se nunca fosse ser olhada por ti como são todas as outras tipas. Nem chamo mulheres. Tu não olhas para mulheres. Porque mulheres nem te dão bola e topam-te logo. Tu queres e desejas tudo o que move e é de género feminino porque eu nua à tua frente não chega. Porque o meu cabelo não chega. Porque é que não deixas crescer o cabelo e porque é que cortaste o cabelo, o teu cabelo comprido ficava-te tão bem. Porque não sejas parva, que disparate, não é nada disso que quero dizer. Porque há sempre algo que me falta. E porque tu não me dás v-a-l-o-r.

    É isto o que sinto. E é isto o que sei sobre esta merda toda. Valor. Mas como se poderá valorizar no outro algo que não se tem? Exacto. Não se pode.

    Foste um cancro que apareceu na minha vida. Toda a tristeza que sinto e toda a apatia estão simultaneamente em conflito uma com a outra. É que nem a merda da tristeza eu já a consigo sentir na sua totalidade. Não me sinto capaz. Já não cabe dentro do meu corpo mais dor e mágoa. O que torna este cancro de ti ainda maior e mais difícil de escapar.

    Ao sair de casa, reparo num senhor, à porta de uma sapataria, do outro lado do passeio em que eu estava. Mais à frente um ou dois senhores que também me olhavam.
Mais à frente um bocado de passeio levantado que fez a minha mala ficar presa. Na estação, um padre sentado.

     E todas estas pessoas e toda esta cidade pareciam fitar-me enquanto a abandanova, parecendo saber exatamente como me sentia. Há tanto a dizer sobre esta cidade, sem dúvida.

     E é mesmo pena que durante uns tempos não consiga ver a sua verdadeira cor e alma sem te associar a este lugar primeiro.

    Já nem sei mais o que escrever mas ainda me resta quase uma hora de espera até ao meu autocarro e escrever parece ser o mais acertado a fazer. Pelo menos tento aliviar as minhas mãos trémulas e o meu coração pesado e vazio. Pesado de dor e mágoa. Vazio qualquer sentimento positivo relativo a isto tudo.

    Não é justo que me tivesses feito isto.
Mas para ti, como sempre, tu não fizeste nada.










My head is a mess.

My head.
My head is a mess.
I could say
my head
is a pretty
mess.
I could, but I
shouldn't.
For I would be

lying.

I don't fancy lies
very much.
Lies are the reason
my head
is pretty messed up.
But as I said,
it's not a pretty mess.

A noite.


Ontem saí à noite. Pela primeira vez em muitos meses, senti-a. Senti toda a sua  envolvência e descomprometimento que insiste em manter-se constante noite adentro. O fumo, a música. Os olhares de gente tão descomprometida quanto a própria noite que frequentam. A promessa que paira no ar de que todos ali se irão «divertir». E ao dito «divertir» é inerente toda uma série de accções que temos com, friso eu, o tal descomprometimento.
A noite é única. E existe uma noção de que aquele tempo e aquele espaço (e aquelas pessoas) são de usufruto momentâneo e inconsequente. O que interessa é o ali e o agora. Nada mais existe.
A noite é o lado negro de cada um de nós. É o aquele lugar comum onde todas as almas perdidas se encontram, sabendo que assim o são e simultaneamente não querendo saber disso. É uma paragem no tempo.
Ali, pode observar-se de tudo um pouco. Cabelos algo arranjados e eyeliners pretos  e esborratados, camisas de marca mal-passadas que são disfarçadas pelos casacos que lhes cobrem os vincos, mãos ocupadas por copos e cigarros. Olhares que se cruzam e entrecruzam uma e outra vez. Corpos que se tocam. Respirações que, ofegantes, teimam em procurar ali algum refúgio daquilo a que durante o dia não se consegue fugir. Toda a espécie de pessoas.
A noite é aquele sítio onde não interessa se tens o décimo-segundo ano mal acabado ou um doutouramento em engenharia eletro-mecânica. Não interessa se és tão gordo como pensas ou não tão alta como gostarias. Não interessa se és baixa, se o teu cabelo tem as pontas sequíssimas ou se tens celulite e aquela barriguinha de que nunca te conseguiste livrar. Não interessa se tens barriga de cerveja, um hálito chato a cigarros e vinho ou um problema em manter um relacionamento duradouro. Nada disso interessa.
 Interessa sim manter as tais mãos ocupadas, o telemóvel ligado, sempre pronto a registar aqueles momentos de que amanhã nem te irás lembrar assim tão bem ou a receber aquela chamada que te irá prolongar essa noite na cama de alguém. Interessa sim ter as mesmas mãos ocupadas umas horas mais tarde de um corpo nú à tua frente que se calhar nunca o vais chegar a explorar verdadeiramente. Interessa que aquele momento é isso mesmo, apenas. É aquele momento. E mais nenhum. O cliché de que toda a gente te parece mais bonita na noite é tão certo como chegares a casa com a roupa a tresandar a tabaco. E a música nem sequer é assim tão boa ou até chega por vezes a ser uma merda, mas isso já não interessa porque ela já penetra cada poro do teu corpo sem que tu sequer te apercebas. Assim como o alcoól que bebes. Assim como os ciagrros que fumas.
E por tudo isto, sais e continuas a sair. Tentando desmistificar e procurar algo que sabes que não vais encontrar ali. Por mais que bebas, por mais que te divirtas, por mais que dances e por mais que fumes. Por mais que penses e digas para ti próprio que aquela foi uma «grande noite».
No fundo sabes que todos procuram algo e nem sabem bem nem o que é nem por que o procuram. Mas tu também o fazes. E por mais que tentes parar de o fazer, não consegues porque o vício de procurar é maior do que a ideia de o/a vir a encontrar. Chamem-lhe ciclo vicioso, chamem-lhe o que quiserem. Há sempre essa procura incessante e inerente à  noite per se.
 E assim o único comprometimento que passa a existir é esse. É entre ti e a noite. Ela que te guia e te faz relaxar nas horas mais ou menos difíceis. Ela que te puxa para todo um rol de prazeres carnais e emocionais que são limitados àquele momento. E esta relação é daquelas que dificilmente acaba. E a menos que descubras e eventualmente encontres aquilo por que realmente procura, esta relação vai continuando. É daquelas tipo vai-não-vai, que ora é mais forte ora fraqueja, ora vira rotineira. Das que te fazem duvidar de ti próprio e perguntar-te «porque é que ainda aqui estou?». E este texto poderia não ter fim pois há sempre algo mais a dizer sobre a noite. Se ela fosse uma mulher, era concerteza uma das maiores putas que eu já alguma vez vi na vida.
Apenas uma última coisa a acrescentar. Conduzam com precaução, bebam com moderação e... protejam-se. Dizem que essa puta fode mesmo muitas vidas.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Vazio.


(...)
É um vazio que não entra nem sai.
Não deixa respirar nem sair o ar que já lá está dentro.
Não consigo sentir isto. É um sentir que não é cheio, é apenas oco.
Dói mas já nem doi o suficiente para pelo menos conseguires sentir alguma coisa consistente.

O porquê de o sentir existe apenas entre um conjunto de palavras proferidas e uma atitude. Ambas estas coisas são ar. Não passam de ar. Quer dizer... O ar além de ser aquilo que respiramos, aquilo de que precisamos para viver (por outras palavras, indispensável), também provoca sintomas de dor? FÍSICOS?!

Por vezes não nos lembramos de certas situações que ocorreram num determinado momento da nossa vida. Por vezes, nem sequer sabemos já o que sentimos nesse momento em particular. No entanto, isso não significa que o nosso corpo não se lembre. 
Algo me faz acreditar (ou sentir) que a nossa memória se estende muito para além do nosso cérebro. 
Às vezes, tenho mesmo a sensação de que a nossa pele tem memória. Os nossos olhos, os nossos ouvidos. A nossa boca. E os nossos sentidos estremecem quando essa memória é de alguma forma activada. 
Aquilo que dói não é específico. Fica algures entre o peito (isso mesmo, do lado esquerdo) e o corpo todo.

(...)

Chorar faz bem. Dizem que lava a alma, por dentro. Ajuda a alguma coisa. Não sei bem a quê mas gosto de acreditar que se realmente lava a alma (sentimo-nos mais leves normalmente depois de chorar certo?) lava também o resto.
Em suma, a culpa disto é da memória. 
Essa que tem a mania de que até o código genético consegue enganar.
(...)

To be continued. Ou então não. 


domingo, 16 de fevereiro de 2014

Agora danço sozinha.

     Não escrevo quando quero e quando quero não escrevo.

      Tento conciliar estes dois pólos mas às vezes é impossível.
Tenho procurado libertar-me. Deixar-me sentir, sofrer, chorar.
 Finalemnte, tenho conseguido.

     Quero voltar a ler, a ser quem sou.
Não ter medo de viver nem de amar quem amou.
Poder olhar para o céu e ver a Terra,
 poder olhar para o chão e ver as nuvens que existem por debaixo dos meus pés.







 Poder rir. Tenho saudades de rir.
De uma forma só minha, que se perdeu entretanto.
Saudades de sorrir. De sorrir sem medo, sem esforço, sem condicionantes.
Tenho saudades.
Saudades de ti também.


Mas tenho mais saudades de mim e daquilo que sei que vou ser capaz de fazer.
Tenho pressa e queria conseguir reconstruir-me num único dia. Sem atrasos.
Mas infelizmente não se passa assim. O tempo não passa assim.

Quero voltar a fundir-me naquilo que escrevo, voltar a rever-me naquilo que sou.
Pois eu sei que sou estas palavras, estas coisas que penso e que escrevo.


     Eu sou lágrimas e dor. Mas também sou alegria e energia, felicidade, riso, abraços.
    Sou luz e contagio-te.
Contagio-me também e quero contagiar o mundo com a minha luz.
Essa luz que também já foi tua. E que ainda é.
Porque na verdade, ela não é só tua nem minha, ela é de todos.

 
 E é isto luz... e é isto vida :uma dança de luzes que se cruzam e descruzam.
Vou voltar a encontrar-me e eu sei.


Sei que sim porque o que sei de mim é-me tão familiar, e eu conheço-o.
Sei que sim pois já estou a caminhar para aquela Joana que hei-de encontrar e de amar.
Sei que vou crecer com esta dança. Mas que ela não vai ser a mesma se eu não te encontrar um dia.
Sejas lá tu quem fores.


Quero tanto dançar contigo.
Dançar a um ritmo que não me pertence só a mim nem só a ti.
Quero dançar a um ritmo que é nosso e que não é o mesmo sem as nossas duas luzes.
Vamos dançar ao som dessas luzes.

Mas ainda não.

Agora danço sozinha, enquanto encontro o meu ritmo.
Danço ao som da minha voz e da voz do mundo que me acolhe e me protege.
Danço ao som do mar e das nuvens. Danço. E contínuo a dançar.
Por entre ventos e pedras, chuvas e tempestades.

Enquanto a minha dança não se cruza com a tua, enquanto a tua luz não encontra a minha...
Agora danço sozinha.












quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

''Não leias isto'' (...) entre um tempo de tristeza há dois espaços de felicidade.

Não leias isto.

Não leias isto que sempre quis que tanto lesses por entre as lágrimas do meu rosto.
E hoje não adianta de muito ler meia dúzia de palavras que já nada te farão sentir.

Não leias isto. Não leias. Não vais encontrar nada de novo. O que era novo já foi e foi há muito tempo.
Nem dura para sempre, nem se mantem novo.
Renova-se.
E para se renovar há que achar novidade naquilo que já de novo não tem nada.

Não leias mais.
Não vais encontrar nada do que já não te tenha dito antes, algum dia, há muito tempo.
Ou talvez vás.
Para mim, não foi assim há tanto tempo. Para mim ainda é um hoje. Que perdura e insiste em voltar já estando presente, de cada vez em que parece que o tempo parou e eu deixei de me distrair por pouco tempo.

Não leias isto.
Não vais querer lê-lo nem tão pouco querer sabê-lo. Felizmente para ti o tempo foi outro.
E neste momento já é outro. Invejo o tempo em que estás porque queria saber como estar no meu tempo;
Aquele que sei que vai ser o meu tempo.
Meu e só meu. Mas ainda não cheguei lá.

Não leias isto. Porque ainda preciso de acreditar que estás na ignorância da minha existência
e eu na ignorância da tua.
Não faz muito sentido. Tal como eu. Nunca fiz muito sentido.

Não leias isto... essencialmente porque acho que não faz sentido, se eu nunca te fiz sentido,
porque é que agora eu ou alguma coisa que venha de mim ía fazer...
Quem me dera não ter sentido.

Não leias isto... Porque quando o leres já eu não estarei a desejar não ter sentido.
Porque quando vires já eu estarei a querer sentir outra vez.
Porque entre um tempo de tristeza há dois espaços de felicidade.
E eu sou feliz assim.
De lágrimas no rosto
A renovar-me todos os dias
A não ter sentido nenhum
E a sentir o que agora não quero sentir.



Não leias isto porque no fundo até poderias saber que eu queria mesmo era que lesses.
Mas isso sim, não faria sentido.



J

where does this whole 'stay gold-thing' come from?

Here's your answer, for those who don't know.




Nature's first green is gold,

Her hardest hue to hold.

Her early leaf's a flower;


But only so an hour.


Then leaf subsides to leaf,


So Eden sank to grief,


So dawn goes down to day


Nothing gold can stay. 




Robert Frost

Ao Pedro.

Hoje foi um dia em que Reflecti muito.

O que hoje aprendi parece ser algo que está sempre a ir e a vir, um ensinamento daqueles que nunca se estabelecem dentro de nós, vai e vem como o vento e teima em não ficar.

Hoje aprendi outra vez que há coisas que dizemos, disparates que fazemos e birras connosco próprios que não valem sequer um segundo da nossa vida.
Acontece. Ou porque é da boca para fora, ou porque é um dia que corre mal, ou porque são muitas coisas de seguida a correrem mal.

Acontece desejarmos que pudéssemos desaparecer.

Acontece.

Hoje pensei nisto como há muito não o fazia.
Entre o hoje e o ontem, muitos de nós ficámos a saber que o mundo perdeu uma alma nova, cheia de vida, cheia de força e vitalidade e energia para dar. Tive pena de nunca ter contactado com esta vida.
É verdade que não a conhecia. É também verdade que conheço muito pouco o Pedro.
Conheço a sua música, o seu trabalho, a sua crença constante na terra que o viu crescer e que o viu escrever, cantar, criar.

Temo que este acontecimento, assim como (acredito) a todos vós, me tenha feito pensar em muita, muita coisa.

Sou daquelas pessoas que acredita verdadeiramente que... a única coisa que nos ajuda a caminhar e a continuar é o amor.

O mais puro de todos. O amor ao próximo. Aquele amor que todos temos a capacidade de sentir mas que com o tempo e com tudo o que nos rodeia faz muitas vezes com que ele ou se desvaneça ou com que nós deixemos de acreditar.

Deixamos de acreditar que a pessoa da frente nos vai segurar na porta não a deixando tombar em cima de nós. Deixamos de acreditar que... se precisarmos de um amigo às quatro da manhã com quem desabafar ou mesmo chorar, ele vai estar lá... Deixamos de acreditar uns nos outros. E parece ser um ciclo vicioso.

Por consequência, deixamos de acreditar no amor.


Como é que hei de traduzir tudo isto que quero dizer em miúdos?
Bem... posso começar por dizer que acredito que este amor de que falo, em primeiro lugar, não é apenas um amor qualquer. Não é um ''amor de namorados'', não é um amor de irmãos, não é um amor específicamente categorizado como nos foi ensinado a fazer com todo o tipo de coisas ao longo da vida, não.

Este amor é o contrário. Este amor não tem categorização possível.
Este amor é o que salva. Salva da perda, salva da tristeza... É aquele que nos salva por vezes de nós próprios. É aquele que salva até da morte.

Por isso... conhecidos, desconhecidos, amigos e família destas duas almas que se amaram no verdadeiro sentido da palavra, amem mais, amem mais ainda quem está, amem mais quem parte, amem-se uns aos outros.

Porque se isso não existisse, ninguém ficava por cá. Ninguém lutava. Ninguém ganha força sem o amor puro e honesto dos que nos rodeiam e dos que nos são próximos.


Muita força Pedro; Espero e acredito honestamente que terás o amor necessário que te vai fazer (re)nascer.
Sei que tens muitas almas a torcer por ti e pela família da tua amada e por todos os que sofrem neste momento; Eu torço por ti, Armação torce por ti e todos os que te conhecem, melhor ou pior, torcem por ti.



xx

J