És como uma página cheia de rabiscos e desenhos bonitos que quero rasgar. Quero arrancar essa página com todas as minhas forças, sem tremer como já tremo enquanto passo ainda mais palavras para este ''teu'' papel. Nunca serás meu nem nunca serás de ninguém. Nem sequer serás o teu próprio ''papel''.
Quando vim embora, não olhei para trás. Nem para ti nem para aquela casa cheia de paredes que eram cheias de histórias, cheias de música que já tocou, cheias de gemidos que ali ecoaram, cheias de lágrimas que ali já derramaram. Minto, olhei para ti uma última vez, hesitante entre fazer com que aquele fosse o último olhar que pousaria sobre ti ou se ainda olhasse mais uma vez. E acho que aí, a escolha quase inconsciente que fiz era óbvia. Voltar a olhar não fazia sentido. ''Voltar'' por si só não faz sentido.
Já não dá. E no entanto, durante todo este tempo é o que tenho feito. Voltar. Estou cansada daquele cansaço que já nem sei como é que ele se define exatamente. Estou triste. Apática. Poderia dizer que me sinto em baixo, mas a minha auto-estima está destruída, sinto-me trocada e é como se nunca fosse ser olhada por ti como são todas as outras tipas. Nem chamo mulheres. Tu não olhas para mulheres. Porque mulheres nem te dão bola e topam-te logo. Tu queres e desejas tudo o que move e é de género feminino porque eu nua à tua frente não chega. Porque o meu cabelo não chega. Porque é que não deixas crescer o cabelo e porque é que cortaste o cabelo, o teu cabelo comprido ficava-te tão bem. Porque não sejas parva, que disparate, não é nada disso que quero dizer. Porque há sempre algo que me falta. E porque tu não me dás v-a-l-o-r.
É isto o que sinto. E é isto o que sei sobre esta merda toda. Valor. Mas como se poderá valorizar no outro algo que não se tem? Exacto. Não se pode.
Foste um cancro que apareceu na minha vida. Toda a tristeza que sinto e toda a apatia estão simultaneamente em conflito uma com a outra. É que nem a merda da tristeza eu já a consigo sentir na sua totalidade. Não me sinto capaz. Já não cabe dentro do meu corpo mais dor e mágoa. O que torna este cancro de ti ainda maior e mais difícil de escapar.
Ao sair de casa, reparo num senhor, à porta de uma sapataria, do outro lado do passeio em que eu estava. Mais à frente um ou dois senhores que também me olhavam.
Mais à frente um bocado de passeio levantado que fez a minha mala ficar presa. Na estação, um padre sentado.
E todas estas pessoas e toda esta cidade pareciam fitar-me enquanto a abandanova, parecendo saber exatamente como me sentia. Há tanto a dizer sobre esta cidade, sem dúvida.
E é mesmo pena que durante uns tempos não consiga ver a sua verdadeira cor e alma sem te associar a este lugar primeiro.
Já nem sei mais o que escrever mas ainda me resta quase uma hora de espera até ao meu autocarro e escrever parece ser o mais acertado a fazer. Pelo menos tento aliviar as minhas mãos trémulas e o meu coração pesado e vazio. Pesado de dor e mágoa. Vazio qualquer sentimento positivo relativo a isto tudo.
Não é justo que me tivesses feito isto.
Mas para ti, como sempre, tu não fizeste nada.


