segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
A noite.
Ontem saí à noite. Pela primeira vez em muitos meses, senti-a. Senti toda a sua envolvência e descomprometimento que insiste em manter-se constante noite adentro. O fumo, a música. Os olhares de gente tão descomprometida quanto a própria noite que frequentam. A promessa que paira no ar de que todos ali se irão «divertir». E ao dito «divertir» é inerente toda uma série de accções que temos com, friso eu, o tal descomprometimento.
A noite é única. E existe uma noção de que aquele tempo e aquele espaço (e aquelas pessoas) são de usufruto momentâneo e inconsequente. O que interessa é o ali e o agora. Nada mais existe.
A noite é o lado negro de cada um de nós. É o aquele lugar comum onde todas as almas perdidas se encontram, sabendo que assim o são e simultaneamente não querendo saber disso. É uma paragem no tempo.
Ali, pode observar-se de tudo um pouco. Cabelos algo arranjados e eyeliners pretos e esborratados, camisas de marca mal-passadas que são disfarçadas pelos casacos que lhes cobrem os vincos, mãos ocupadas por copos e cigarros. Olhares que se cruzam e entrecruzam uma e outra vez. Corpos que se tocam. Respirações que, ofegantes, teimam em procurar ali algum refúgio daquilo a que durante o dia não se consegue fugir. Toda a espécie de pessoas.
A noite é aquele sítio onde não interessa se tens o décimo-segundo ano mal acabado ou um doutouramento em engenharia eletro-mecânica. Não interessa se és tão gordo como pensas ou não tão alta como gostarias. Não interessa se és baixa, se o teu cabelo tem as pontas sequíssimas ou se tens celulite e aquela barriguinha de que nunca te conseguiste livrar. Não interessa se tens barriga de cerveja, um hálito chato a cigarros e vinho ou um problema em manter um relacionamento duradouro. Nada disso interessa.
Interessa sim manter as tais mãos ocupadas, o telemóvel ligado, sempre pronto a registar aqueles momentos de que amanhã nem te irás lembrar assim tão bem ou a receber aquela chamada que te irá prolongar essa noite na cama de alguém. Interessa sim ter as mesmas mãos ocupadas umas horas mais tarde de um corpo nú à tua frente que se calhar nunca o vais chegar a explorar verdadeiramente. Interessa que aquele momento é isso mesmo, apenas. É aquele momento. E mais nenhum. O cliché de que toda a gente te parece mais bonita na noite é tão certo como chegares a casa com a roupa a tresandar a tabaco. E a música nem sequer é assim tão boa ou até chega por vezes a ser uma merda, mas isso já não interessa porque ela já penetra cada poro do teu corpo sem que tu sequer te apercebas. Assim como o alcoól que bebes. Assim como os ciagrros que fumas.
E por tudo isto, sais e continuas a sair. Tentando desmistificar e procurar algo que sabes que não vais encontrar ali. Por mais que bebas, por mais que te divirtas, por mais que dances e por mais que fumes. Por mais que penses e digas para ti próprio que aquela foi uma «grande noite».
No fundo sabes que todos procuram algo e nem sabem bem nem o que é nem por que o procuram. Mas tu também o fazes. E por mais que tentes parar de o fazer, não consegues porque o vício de procurar é maior do que a ideia de o/a vir a encontrar. Chamem-lhe ciclo vicioso, chamem-lhe o que quiserem. Há sempre essa procura incessante e inerente à noite per se.
E assim o único comprometimento que passa a existir é esse. É entre ti e a noite. Ela que te guia e te faz relaxar nas horas mais ou menos difíceis. Ela que te puxa para todo um rol de prazeres carnais e emocionais que são limitados àquele momento. E esta relação é daquelas que dificilmente acaba. E a menos que descubras e eventualmente encontres aquilo por que realmente procura, esta relação vai continuando. É daquelas tipo vai-não-vai, que ora é mais forte ora fraqueja, ora vira rotineira. Das que te fazem duvidar de ti próprio e perguntar-te «porque é que ainda aqui estou?». E este texto poderia não ter fim pois há sempre algo mais a dizer sobre a noite. Se ela fosse uma mulher, era concerteza uma das maiores putas que eu já alguma vez vi na vida.
Apenas uma última coisa a acrescentar. Conduzam com precaução, bebam com moderação e... protejam-se. Dizem que essa puta fode mesmo muitas vidas.
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