quinta-feira, 7 de abril de 2016

Anda cá ver

Anda cá ver se ainda é tua
A ferida que não sara
Joga a mão e atenua
Esta dor que nunca pára

Dá-me a mão ou só uns dedos
Para saber se ainda sinto
O mesmo que antes, sem medos
Se for diferente, eu não minto

Sem maldade eu só queria
Ter-te a meu lado e ver
Se o meu corpo ainda treme
Sua, vibra, sente e geme
Como antes o fazia
Até deixar de o fazer.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

O amor que eu quero I



O amor que eu admiro é aquele amor que é independente. É livre. É solto, não tem princípio nem fim e parece ser sem ser preciso ter sido algo diferente daquilo que já é. Parece confuso? Eu acho que é a forma mais simples e bonita de amar, talvez a única que deveríamos conhecer.


O amor que eu tive... Ah, o amor... ou melhor, os amores que eu tive. E os ''desamores''. Amar e desamar dá cabo da cabeça, faz rugas e chateia durante mais tempo do que aquilo que se pensa. Provoca uma espécie de comichãozinha semi-permanente, que é desencadeada pelas mais diversas coisas, normalmente escolhidas pelo nosso leal amigo ''subconsciente''. Demasiado leal, até. Está sempre lá. É por causa dele que apanhamos as ditas bebedeiras, saímos para espairecer, sobrecarregamo-nos de trabalho, tentamos ao máximo distrair a mente, quando no fundo o que queremos realmente distrair é o coração.


Como ia dizendo, os amores que eu tive foram tão intensos como os desamores. Tiveram tanto de mau como de bom e sempre que a escala de felicidade atingia picos altíssimos, mirabolantes, extasiantes e outros tantos ''antes'' nunca antes imaginados por mim, percebi eventualmente que o mesmo iria acontecer quando a escala reduzisse e caísse a pico. Para uma numeração muito abaixo de zero.
 E isso não é mau. Nem é bom. É o que é, foi o que foi.

Quanto ao amor que eu quero? Só sei que não é um daqueles de conto de fadas que além de não existirem, ainda ganham o título de autêntica seca... São bons para pessoas conformadas, para Ricardos Reis e outros heterónimos da mesma espécie... Não é que o amor estilo «conto de fadas» não possa existir. Mas foi definitivamente feito para pessoas que não existem - o que acaba por ir dar à mesma coisa.

O amor que eu quero é indefinido. Não tem forma, nem cor, nem cheiro. É indefinido por natureza. O amor que eu quero não existe porque o amor não deve ser algo que se ''quer'', é algo que se sente e quanto mais se quer menos existe. Evapora-se. Distorce-se. É disforme. Definir o que se quer já é difícil por si só, quanto mais definir um amor que se quer. Queremos demasiado, sentimos demasiado pouco.

Imagino uma corda em que cada um puxa para seu lado, cada lado é uma emoção diferente, cada corda é um dia diferente, naquilo a que chamamos despreocupadamente ''relacionamento''. Por isso fácil é definir o amor que não quero. O amor que quero? Esse não existe. Hei-de sentir como fiz antes e tentar apenas saber ver o que não quero, quanto sentir.


 (...)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Letter to ______

Dear __________



     I am writing you at this late hour of the night in search of an answer I am pretty sure you won't give me so soon. These months have been crazy and I know you have been going through hell. As Winston Churchill said, ''keep going.'' Even hell has a limit and it comes to an end.
     I have noticed you are very worried about lots of things, such as your business, your future job, your future plans and you are still feeling a bit lost regarding the decisions you will have to make in a near future. Take a deep breath. Do not panic, it will not help you at all. I know you try with all your heart to follow it but sometimes we get confused by all this mess. It's like a huge fog running through your ideas and making it harder to see what you already feel. When this happens, my advice is: go to the sea. He will have all your answers, I know that. You have grown your way with the Sea watching it and he knows all your truths. Trust him a bit. He knows everything you are going through. For he is God as well. Ok, ok... the Universe. I know you don't really like to name everything and you'd rather call it Nature, Universe, Energy. Go follow those, right now. Haven't they helped you before? I know they have and I'm certainly not the only one who knows it.
    This too shall pass. Oh, how poetic of me to say something I, myself, seem to not understand intererly for we all make the same mistakes again, and forget to remember what we have learnt before. May this not seem too disturbing.... what am I saying, it's with you I am writing to, not some nayve or dumb young girl. You are young but your soul is so old. I know. I feel the same way.
   What I am basically trying to tell you sweetie... is that, we all need a shoulder to cry on. We all need someone there who can dampen our pain. The worst part of this suffering is the one in which we need to clean up all the little crumbs that are still clinging to our veins. The blood still flows you know, but the crumbs... there they are. Not looking like they're going anywhere. Like if their place is there, inside your aorta or something.
   You, my dear, need to cry. You need to cry and feel all that noisy and annoying pain that is there, acting like it's not screaming, like it's just singing a pretty song in your heart. Yeah, that one that always comes to your head and it's not even that pretty anymore. It's just that one song. Again. And again. On an endless replay.
    You also need to tell them who you are. Who your hair is. Who your mind is. Who your soul is.
You don't need to show them, it's not about show off and you know it! It's about telling. Telling who you are, if anyone ever questions. Telling who are your pale white bare hands turned up to the sky begging for something you don't know how or where to find anymore. Tell your name to anyone who puts it in doubt.
But only tell when you feel like you want to, just so you won't be holding that weight alone. Who you are shouldn't even be a weight. It should be a feather. And it is a feather. Just like you are.

Now that I have said (I think) everything I had to, let me introduce to you. Or shall I say, let me introduce you? Or both? Who am I? And who are you?

Who are we? You know who you are. I know who I am. Let's tell them.

Yeah, well... Go fuck yourselves. This is me.


Much love,



Joana

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

22/10

      És como uma página cheia de rabiscos e desenhos bonitos que quero rasgar. Quero arrancar essa página com todas as minhas forças, sem tremer como já tremo enquanto passo ainda mais palavras para este ''teu'' papel. Nunca serás meu nem nunca serás de ninguém. Nem sequer serás o teu próprio ''papel''.

   Quando vim embora, não olhei para trás. Nem para ti nem para aquela casa cheia de paredes que eram cheias de histórias, cheias de música que já tocou, cheias de gemidos que ali ecoaram, cheias de lágrimas que ali já derramaram. Minto, olhei para ti uma última vez, hesitante entre fazer com que aquele fosse o último olhar que pousaria sobre ti ou se ainda olhasse mais uma vez. E acho que aí, a escolha quase inconsciente que fiz era óbvia. Voltar a olhar não fazia sentido. ''Voltar'' por si só não faz sentido.
Já não dá. E no entanto, durante todo este tempo é o que tenho feito. Voltar. Estou cansada daquele cansaço que já nem sei como é que ele se define exatamente. Estou triste. Apática. Poderia dizer que me sinto em baixo, mas a minha auto-estima está destruída, sinto-me trocada e é como se nunca fosse ser olhada por ti como são todas as outras tipas. Nem chamo mulheres. Tu não olhas para mulheres. Porque mulheres nem te dão bola e topam-te logo. Tu queres e desejas tudo o que move e é de género feminino porque eu nua à tua frente não chega. Porque o meu cabelo não chega. Porque é que não deixas crescer o cabelo e porque é que cortaste o cabelo, o teu cabelo comprido ficava-te tão bem. Porque não sejas parva, que disparate, não é nada disso que quero dizer. Porque há sempre algo que me falta. E porque tu não me dás v-a-l-o-r.

    É isto o que sinto. E é isto o que sei sobre esta merda toda. Valor. Mas como se poderá valorizar no outro algo que não se tem? Exacto. Não se pode.

    Foste um cancro que apareceu na minha vida. Toda a tristeza que sinto e toda a apatia estão simultaneamente em conflito uma com a outra. É que nem a merda da tristeza eu já a consigo sentir na sua totalidade. Não me sinto capaz. Já não cabe dentro do meu corpo mais dor e mágoa. O que torna este cancro de ti ainda maior e mais difícil de escapar.

    Ao sair de casa, reparo num senhor, à porta de uma sapataria, do outro lado do passeio em que eu estava. Mais à frente um ou dois senhores que também me olhavam.
Mais à frente um bocado de passeio levantado que fez a minha mala ficar presa. Na estação, um padre sentado.

     E todas estas pessoas e toda esta cidade pareciam fitar-me enquanto a abandanova, parecendo saber exatamente como me sentia. Há tanto a dizer sobre esta cidade, sem dúvida.

     E é mesmo pena que durante uns tempos não consiga ver a sua verdadeira cor e alma sem te associar a este lugar primeiro.

    Já nem sei mais o que escrever mas ainda me resta quase uma hora de espera até ao meu autocarro e escrever parece ser o mais acertado a fazer. Pelo menos tento aliviar as minhas mãos trémulas e o meu coração pesado e vazio. Pesado de dor e mágoa. Vazio qualquer sentimento positivo relativo a isto tudo.

    Não é justo que me tivesses feito isto.
Mas para ti, como sempre, tu não fizeste nada.










My head is a mess.

My head.
My head is a mess.
I could say
my head
is a pretty
mess.
I could, but I
shouldn't.
For I would be

lying.

I don't fancy lies
very much.
Lies are the reason
my head
is pretty messed up.
But as I said,
it's not a pretty mess.

A noite.


Ontem saí à noite. Pela primeira vez em muitos meses, senti-a. Senti toda a sua  envolvência e descomprometimento que insiste em manter-se constante noite adentro. O fumo, a música. Os olhares de gente tão descomprometida quanto a própria noite que frequentam. A promessa que paira no ar de que todos ali se irão «divertir». E ao dito «divertir» é inerente toda uma série de accções que temos com, friso eu, o tal descomprometimento.
A noite é única. E existe uma noção de que aquele tempo e aquele espaço (e aquelas pessoas) são de usufruto momentâneo e inconsequente. O que interessa é o ali e o agora. Nada mais existe.
A noite é o lado negro de cada um de nós. É o aquele lugar comum onde todas as almas perdidas se encontram, sabendo que assim o são e simultaneamente não querendo saber disso. É uma paragem no tempo.
Ali, pode observar-se de tudo um pouco. Cabelos algo arranjados e eyeliners pretos  e esborratados, camisas de marca mal-passadas que são disfarçadas pelos casacos que lhes cobrem os vincos, mãos ocupadas por copos e cigarros. Olhares que se cruzam e entrecruzam uma e outra vez. Corpos que se tocam. Respirações que, ofegantes, teimam em procurar ali algum refúgio daquilo a que durante o dia não se consegue fugir. Toda a espécie de pessoas.
A noite é aquele sítio onde não interessa se tens o décimo-segundo ano mal acabado ou um doutouramento em engenharia eletro-mecânica. Não interessa se és tão gordo como pensas ou não tão alta como gostarias. Não interessa se és baixa, se o teu cabelo tem as pontas sequíssimas ou se tens celulite e aquela barriguinha de que nunca te conseguiste livrar. Não interessa se tens barriga de cerveja, um hálito chato a cigarros e vinho ou um problema em manter um relacionamento duradouro. Nada disso interessa.
 Interessa sim manter as tais mãos ocupadas, o telemóvel ligado, sempre pronto a registar aqueles momentos de que amanhã nem te irás lembrar assim tão bem ou a receber aquela chamada que te irá prolongar essa noite na cama de alguém. Interessa sim ter as mesmas mãos ocupadas umas horas mais tarde de um corpo nú à tua frente que se calhar nunca o vais chegar a explorar verdadeiramente. Interessa que aquele momento é isso mesmo, apenas. É aquele momento. E mais nenhum. O cliché de que toda a gente te parece mais bonita na noite é tão certo como chegares a casa com a roupa a tresandar a tabaco. E a música nem sequer é assim tão boa ou até chega por vezes a ser uma merda, mas isso já não interessa porque ela já penetra cada poro do teu corpo sem que tu sequer te apercebas. Assim como o alcoól que bebes. Assim como os ciagrros que fumas.
E por tudo isto, sais e continuas a sair. Tentando desmistificar e procurar algo que sabes que não vais encontrar ali. Por mais que bebas, por mais que te divirtas, por mais que dances e por mais que fumes. Por mais que penses e digas para ti próprio que aquela foi uma «grande noite».
No fundo sabes que todos procuram algo e nem sabem bem nem o que é nem por que o procuram. Mas tu também o fazes. E por mais que tentes parar de o fazer, não consegues porque o vício de procurar é maior do que a ideia de o/a vir a encontrar. Chamem-lhe ciclo vicioso, chamem-lhe o que quiserem. Há sempre essa procura incessante e inerente à  noite per se.
 E assim o único comprometimento que passa a existir é esse. É entre ti e a noite. Ela que te guia e te faz relaxar nas horas mais ou menos difíceis. Ela que te puxa para todo um rol de prazeres carnais e emocionais que são limitados àquele momento. E esta relação é daquelas que dificilmente acaba. E a menos que descubras e eventualmente encontres aquilo por que realmente procura, esta relação vai continuando. É daquelas tipo vai-não-vai, que ora é mais forte ora fraqueja, ora vira rotineira. Das que te fazem duvidar de ti próprio e perguntar-te «porque é que ainda aqui estou?». E este texto poderia não ter fim pois há sempre algo mais a dizer sobre a noite. Se ela fosse uma mulher, era concerteza uma das maiores putas que eu já alguma vez vi na vida.
Apenas uma última coisa a acrescentar. Conduzam com precaução, bebam com moderação e... protejam-se. Dizem que essa puta fode mesmo muitas vidas.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Vazio.


(...)
É um vazio que não entra nem sai.
Não deixa respirar nem sair o ar que já lá está dentro.
Não consigo sentir isto. É um sentir que não é cheio, é apenas oco.
Dói mas já nem doi o suficiente para pelo menos conseguires sentir alguma coisa consistente.

O porquê de o sentir existe apenas entre um conjunto de palavras proferidas e uma atitude. Ambas estas coisas são ar. Não passam de ar. Quer dizer... O ar além de ser aquilo que respiramos, aquilo de que precisamos para viver (por outras palavras, indispensável), também provoca sintomas de dor? FÍSICOS?!

Por vezes não nos lembramos de certas situações que ocorreram num determinado momento da nossa vida. Por vezes, nem sequer sabemos já o que sentimos nesse momento em particular. No entanto, isso não significa que o nosso corpo não se lembre. 
Algo me faz acreditar (ou sentir) que a nossa memória se estende muito para além do nosso cérebro. 
Às vezes, tenho mesmo a sensação de que a nossa pele tem memória. Os nossos olhos, os nossos ouvidos. A nossa boca. E os nossos sentidos estremecem quando essa memória é de alguma forma activada. 
Aquilo que dói não é específico. Fica algures entre o peito (isso mesmo, do lado esquerdo) e o corpo todo.

(...)

Chorar faz bem. Dizem que lava a alma, por dentro. Ajuda a alguma coisa. Não sei bem a quê mas gosto de acreditar que se realmente lava a alma (sentimo-nos mais leves normalmente depois de chorar certo?) lava também o resto.
Em suma, a culpa disto é da memória. 
Essa que tem a mania de que até o código genético consegue enganar.
(...)

To be continued. Ou então não.